Voltar

Notícia

01/08/2017

Santo Inácio de Loyola e do Brasil


por Pe. Elcio José de Toledo, SJ

Foto: Colégio São Luís

Agradeço a todos a presença nessa Eucaristia. E saúdo a todos os companheiros jesuítas, bem com todos vocês, irmãos e irmãs na fé, desejando que a graça e a paz de Deus nosso Pai, o amor do filho e a comunhão do Espírito santo esteja convosco.

Hoje estamos celebrando a solenidade de Santo Inácio de Loiola, Fundador da Companhia de Jesus, ordem religiosa que tem a missão de estar a serviço da fé. E nós a realizamos junto a essa  porção do povo de Deus que está nessa cidade. Hoje unimos as duas comunidades, a comunidade educativa e a comunidade paroquial, simbolizando nossa missão comum: O Colégio também é lugar de vivenciar a fé e a paróquia também é lugar de educar. E quanto mais unidos realizarmos nossa missão, melhor serviço prestamos ao povo de Deus. Por isso queremos cada vez menos ser "duas comunidades", e cada vez mais trabalharmos unidos em nossa missão comum.

Além de nós, jesuítas, também há entre nós os que chamamos de inacianos, pessoas que tem na espiritualidade inaciana as orientações para Seguir a Cristo. A todos nós é motivo de muita alegria poder celebrar esse Santo que fundou a nossa Ordem Religiosa e nos deixou uma espiritualidade do seguimento de Cristo.

Todos nós, creio, conhecemos bem os dados biográficos de Inácio. Mais do que repetir os dados que já sabemos, gostaria de destacar três elementos de nosso santo fundador. A vida centrada em Cristo, a busca do discernimento e a sua universalidade, e dentro dessa, destacar sua “brasilidade”.  Isso mesmo, eu disse brasilidade, ou seja, a sua relação com nosso país. Mas vamos ver as duas primeiras características:

1. A vida centrada em Cristo. Nós jesuítas, gostamos de lembrar a data de 27 de setembro de 1540 como a data em que Santo Inácio fundou a Companhia de Jesus. Mas a verdadeira fundação da Companhia não se deu em 1540, tampouco se deu um ano antes, quando das deliberações dos primeiros companheiros. Ela se deu no castelo de Loiola, vários anos antes, quando Iñigo de Loiola se recuperava dos ferimentos decorrentes da batalha de Pamplona. Foi nesses meses de recolhimento que o antigo soldado resolveu batalhar em outro exército, o do Rei eterno Jesus Cristo, de quem se tornou companheiro para nunca mais deixá-lo. Naquele dia, ainda não existia a Ordem religiosa chamada Companhia de Jesus, mas já existia um jesuíta, ou alguém que elegeu ser companheiro de Jesus.

As palavras de São Paulo, que há pouco ouvimos, bem poderiam estar inseridas na autobiografia de Inácio: “Dou graças àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso 
Senhor . Mas alcancei misericórdia porque agi com ignorância quando ainda era descrente, mas a graça de nosso Senhor superabundou em mim” 
(1Tm 1, 12-14.) Pois a graça de sentir a presença de Deus foi constante em sua vida, seja perdoando-lhe os pecados, seja chamando-o para segui-lo. Jesus sempre foi seu companheiro e querer conhecê-lo intimamente para mais amá-lo e servi-lo foi uma constante busca em sua vida. Se com São Paulo ele não se atreveria a dizer “Já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim” (Gl 2,20) pelo menos poderia dizer: Apesar de pecador, tenho sempre Cristo a meu lado “para ir onde ele for, para trabalhar com ele para que  seguindo-o na luta, também o siga na Glória” (EE 95.4)

Essa vida centrada em Cristo, tendo certeza de sua presença é o que deve marcar o jesuíta e o inaciano. E a partir dessa vida vem a segunda característica:

2. Homem de discernimento. Na primeira leitura de hoje, do livro do Deuteronômio, Deus coloca Moisés diante de uma escolha: a vida ou a morte, a felicidade ou a infelicidade, a benção ou a maldição. É uma escolha entre o projeto de Deus e o projeto do anti-Deus. Esse discernimento, tão rudimentar para o experiente Santo Inácio, foi feito por Iñigo, jovem convalescente em Loyola. Voltar a combater pelo exercito da Espanha, e assim conseguir honras mundanas, ou seguir ao Senhor Eterno? Não foi sem muita luta espiritual que Inácio optou pelo caminho da vida verdadeira e da felicidade que o seguimento de Cristo proporciona. Depois de moldar sua vida em Cristo, outros discernimentos mais sofisticados apareceram. Mas esse discernimento entre seguir Cristo e não segui-lo,  jamais reapareceu. Ele diz nos Exercícios: “as coisas sobre as quais se queira fazer eleição, sejam ... boas em si e aceitas pela Igreja”. Ou seja, doravante o discernimento sempre será no sentido de servir ao Cristo da melhor forma possível, ou de perceber as armadilhas do seguimento, mas jamais de afastar-se de Cristo. Diz ele no terceiro grau de humildade: “Que eu me recuse a considerar em cometer um simples pecado venial, mesmo em troca de todas as criaturas ou mesmo em troca de minha própria vida (EE 166,1) Pois para Inácio, a verdadeira vida só se consegue com o Cristo, como nos lembra o Evangelho de hoje: “De que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio” (Lc 9).

O Homem de discernimento sempre procurará escolher o que Cristo escolheria, esse discernimento só é possível para quem tem a vida centrada em Cristo. E Inácio era esse homem. E foi dessa centralidade em Cristo e sua missão, que lhe veio o discernimento de renunciar a um projeto de trabalho pastoral local, que seria Jerusalém, por uma opção de disponibilidade para trabalhar em qualquer lugar do mundo. O mundo todo se tornou a sua Jerusalém e daí vem a terceira característica.

3. A universalidade. Normalmente o sobrenome de um santo, tem a ver com o local de sua morte ou com o local onde exerceu grande parte de seu ministério. Assim Santo Antônio de Pádua, Francisco de Assis, Santa Rita de Cássia, etc. Chamamos Santo Inácio de Loiola, lembrando, sem dúvida, o local de seu nascimento e de sua conversão, mas se fossemos dar um sobrenome geográfico a Santo Inácio, teríamos muitas dificuldades. Inácio não viveu seus 16 anos de jesuíta em Loyola, nem em Roma, pois as muralhas da cidade eterna não limitavam sua ação. Inácio viveu no mundo, em todos os lugares, pois influenciou tantas nações, foi responsável pela evangelização das novas terras, e também pela renovação religiosa do velho continente. Acompanhou com seus missionários, suas cartas e suas orações, praticamente todos os acontecimentos da Igreja e da sociedade cristã de sua época. Isso fazia parte de seu trabalho e de sua missão.  Bem podemos dizer que é um santo universal. E dentro dessa universalidade, incluímos o Brasil.

A relação de santo Inácio de Loyola com o Brasil é maior do que se imagina. Foi sob o seu governo que vieram ao Brasil os primeiros jesuítas. O rei de Portugal Dom João III era seu amigo e compartilhava com ele os sentimentos quanto à evangelização das novas terras e encontrou na Companhia de Jesus a parceira ideal para a evangelização das Índias e do Brasil, terras sob seu controle.

Inácio mandou para Portugal nada menos que dois dos fundadores da Companhia, o grande missionário do Oriente, São Francisco Xavier e Simão Rodrigues, que fundou a Companhia nesse pais. Foi nesse período que vieram ao Brasil os jesuítas Manuel da Nóbrega e São José de Anchieta. Depois deles, muitos outros jesuítas vieram e colaboraram não só com a evangelização, mas com a fundação de muitas cidades, entre as quais, a nossa. Colaboraram com a educação, a literatura, o teatro, a medicina e até a construção de estradas.

O historiador Capistrano de Abreu diz que não se pode entender a historia do Brasil sem conhecer a história da Companhia de Jesus. E não se pode conhecer a Companhia sem conhecer seu santo fundador. É verdade que a maioria dos brasileiros desconhece quem seja Santo Inácio, mas por sua vez o Santo sempre soube o que era o Brasil, pois foi um grande conhecedor do que aqui acontecia em sua época. Ele pediu aos jesuítas que lhe escrevessem com frequência dando notícias sobre as missões. E essas cartas, depois de lidas, eram arquivadas em Roma e hoje representam uma documentação rica da história do Brasil procurada por muitos estudiosos. Saibam os estudantes que desejam pesquisar nesses documentos, que toda essa informação teve Inácio por primeiro leitor. Como Inácio era uma pessoa que orava constantemente, podemos acreditar que o Brasil, e principalmente os jesuítas que aqui atuavam, era objeto constante de suas orações e muito do que aconteceu por estas terras foi fruto do discernimento de Inácio. Ou seja, ele soube de nossa existência, rezou por nós e colaborou com a construção de nosso país.

A devoção a esse santo não é tão popular como a São Francisco, Santo Antônio, Santa Rita e outros. No entanto, ele é o mais brasileiro entre os santos populares. E podemos crer que esse santo, que por nós rezou no passado, continua rezando e intercedendo por nós. É um santo universal sim, mas também podemos dizer que é um santo nosso, que amou o Brasil como nós amamos e colaborou com nossa terra, como deveríamos também nós colaborar.

Santo Inácio tem muito a ver conosco, com nossa história e com nossa fé. Portanto podemos invocá-lo assim: “Tu que centraste tua vida em Cristo e soubeste discernir o melhor caminho do seguimento, rogai por nós ao Pai, agora que estás junto dele, assim como rogaste quando estavas entre nós, ó Santo Inácio de Loyola e do Brasil!”. Amém.

Compartilhe:

Comente pelo Facebook:

Prepare sua agenda

Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sáb
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Newsletter

Fique por dentro de todas as nossas atividades.

Rua Apinajés, 2033, CEP: 01258-001 - São Paulo/SP - Tel.: (11) 3862-0342 / 96465-1414
Horário de atendimento da secretaria: 13h às 19h – de segunda a sexta. Das 9h às 14h – aos sábados.

Anchietanum - Copyleft - Permitida a reprodução, sem moderação desde que citados o link e a fonte

Produzido por Plank